terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O Manual do Piloto do Planeta Terra

O Manual do Piloto do Planeta Terra

Ver o Mar pela primeira vez foi inesquecível.

Eu tinha, já, dezoito anos de idade e nunca havia visto o Mar.  Sempre morei , no mínimo, a uns quatrocentos e cinquenta quilômetros do litoral. Família simples, poucos recursos, essa foi uma experiência que a vida me foi adiando, adiando, até o dia de ser capaz de entender completamente onde estava me metendo.

E saibam que fiz minha reentrada no planeta à beira do mar de Camboriú, onde meus pais celebraram lua de mel!

Fui numa kombi surrada tocada pelo Alfredinho, primo perito em qualquer motor. Foi também o primo Antoninho, tio Alfredo irredutível e invencível, minha mãe, todo mundo lá de casa passando o dia em Praia de Leste. Farofas e sucos, lona estendida, dia curto para tanto.

O Mar, hoje sei, é um enorme sem sentido abandonado ao extravagante, mas naqueles dias não tinha ainda reunido essas palavras na minha cabeça. O Mar era o Mar! Imagine aí comigo como foi.

Lá pelo meio da tarde, andei pela praia até ficar sozinho.

Sentei na areia procurando Nereidas e Sereias na crista das ondas, deixando os olhos divagarem e abrindo os outros sentidos. Depois de muito tempo fui até as ondas bem devagar para não assustar ninguém e senti meu eu se espalhando através e uno com a massa d’água infinita, eu e o Mar banhando continentes inteiros com marés e ondas incessantes.

Todas as ondas se acalmaram à minha volta e tocaram meu corpo com carinho, quentes e sensuais.

Mas há um limite para a absorção de vivências extraordinárias. Os sentidos ficam sobrecarregados como fracos disjuntores sujeitos a altas energias. O Mar fascina e atrai, mentido que posso viver para sempre dentro dele. Pobre seduzido cérebro ignorante. Assim, as ondas me levaram de volta para a areia segura onde estou condenado a viver, sempre doces e delicadas.

Embebedado, deito na areia fofa e seca, agarro punhados de areia, moldo entre meus dedos e sinto todo o Planeta Terra sob meu absoluto controle.

Sinto e vejo a mim mesmo ali deitado na beira da praia de pernas abertas, braços ao longo do corpo e mãos enfiadas na areia, na costa do Sul do Brasil, olhos abertos para o céu azul e para o espaço que envolve o Planeta.

Não é fácil pilotar o Planeta Terra.

Ele se move em torno do centro da Via Láctea junto com todos os planetas do Sistema Solar, na velocidade de quase quinze mil (MIL!) quilômetros por hora. Ele se move também em torno duma estrela particular chamada Sol, a cento e sete mil (MIL!) quilômetros por hora. E se move em torno de si mesmo, como um pião, numa volta completa a cada dia. E é um planeta GRANDE.

Você tem que manter todas essas direções e velocidades sempre constantes, através de movimentos leves dos dedos, sem alterar a inclinação do eixo ou perturbar a atração gravitacional da Lua. Não pode perder nem por um segundo a firme concentração, sentindo e visualizando o Planeta Terra como uma nave autopropulsada, sensível, auto-suficiente, frágil diante de forças muito maiores que encontra pelo caminho, trafegando pelo grande estrada que lhe compete no Espaço, girando, circundando e circunavegando numa dança eterna. Afinal, trilhões de seres vivos dependem disso.

Fiquei ali até não aguentar mais a tensão de estar tão concentrado, cansado à exaustão, feliz e realizado por ter feito uma coisa útil.

Desde então, sempre que vou ao Mar novamente, piloto o Planeta Terra.

Assim se passaram quarenta anos.

Nessa última vez, deitado na areia de Maragogi, descobri uma coisa nova. Eu não sou o único Piloto do Planeta.

Existem milhares, talvez milhões, de outros pilotos como eu que se deitam na praia, agarram a areia como se fosse a crina de um cavalo sempre indomado e dirigem o globo terrestre inteiro através do Espaço. Nos revezamos e sempre um de nós mantém o controle e sempre foi assim desde o princípio.


E eu juro a vocês,
nenhuma palavra aqui é ficção.


Maragogi, Alagoas



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Carta a J. D. Salinger

Carta pro J. D. Salinger

Caro Jerry Salinger


Como sei que você continua antenado com o que acontece em
 
seu nome pelo Mundo, vou mandar pro astral da internet um recado prá voce ler.


Fique de boa. Não vou encher muito seu saco, cujo saco todo mundo sabe já encheu faz tempo.


Andam dizendo por aqui que você foi importante demais por ter sido o primeiro a por no papel impresso a voz da juventude  norteamericana. E isso é só o que falam de bom.


Dizem também que voce era um pedófilo sofisticado e que inspirou meia dúzia de mass murder. Que A Guerra te deixou tão travado na adolescência que nunca amadureceu e se tornou homem. Que nunca mais escreveu nada de bom e que, na melhor  das hipóteses, tinha uns parafusos de menos na cabeça.


Não vou dizer que te entendo. Mas, se no seu tempo já era difícil ser um INDIVÍDUO, voce não imagina o quanto hoje isso é impossível, penoso e tudo mais.


Aqui tá foda!


Andei pensando em voce ao dar uma  encadernada no The Catcher in the Rye.


Tenho o livrinho faz tempo e tava bem baleado. Aí juntei mais umas informações, dei uma consertada e encadernei.


Me deu a idéia de fazer a capa com um couro preto para representar o abismo e outro couro claro amarelinho para o campo de centeio, entende?


Para a ilustração, fiz aqueles bonequinhos de papel de mãos dadas, conhece?  Cortei em papel grosso e prensei no couro claro ainda úmido de cola. O negócio é para ficar parecendo um bando de crianças à beira do abismo. Ficou mais ou menos.


Fico pensando que é o que acontece hoje aqui: A gente indo pro buraco todo mundo junto, ainda cantando alguma musiquinha meio besta, de mão dada e tudo.


Tá bom! Gosto mais da metáfora do abismo como lugar onde sacrificamos nossa inocência e Holden nos socorre se tivermos sorte.


Agora o título.


“O Apanhador no Campo de Centeio”, prá mim, é uma merda de título apesar de voce ter aprovado, dizem. Mas é melhor do que no português de Portugal: “Agulha no Palheiro”. E muito melhor do que a proposta dos tradutores brasileiros “A Sentinela do Abismo”, bem no estilo pomposo-meloso que todo mundo curte por aqui.


Então mandei ver só “THE CATCHER”.


O livro é meu, o trabalho é meu. Mas te dou essa satisfação,  se por via das dúvidas voce ainda estiver de olho nas coisas por aqui.

Fique na tua aí.

Seu admirador,


Pedro Malanski


O livro ficou assim:




Capa da segunda edição brasileira

Capa da edição americana em capa dura

Última foto conhecida de J D Salinger, em 2008 

Foto de contracapa das primeiras edições. Mandou retirar nas seguintes.

Trecho final de "Um dia Perfeito para um Peixe Banana"


"If you want to look at my feet, say so," said the young man. "But don't be a God-damned sneak about it."
"Let me out of here, please," the woman said quickly to the girl operating the car.
The car doors opened and the woman got out without looking back.
"I have two normal feet and I can't see the slightest Goddamned reason why anybody should stare at them," said the young man. "Five, please." He took his room key out of his robe pocket.
He got off at the fifth floor, walked down the hall, and let himself into 507. The room smelled of new calfskin luggage and nail-lacquer remover.

He glanced at the girl lying asleep on one of the twin beds. Then he went over to one of the pieces of luggage, opened it, and from under a pile of shorts and undershirts he took out an Ortgies calibre 7.65 automatic. He released the magazine, looked at it, then reinserted it. He cocked the piece. Then he went over and sat down on the unoccupied twin bed, looked at the girl, aimed the pistol, and fired a bullet through his right temple.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Sowf, alimento da alma

Houve um tempo em que a Terra era banhada por uma radiação estelar benéfica, evolutiva e positiva. 
As formas de vida então emergentes eram saudáveis, inteligentes e longevas.
Essa emanação era o Sowf e o planeta era então chamado de Rohanda.
Um evento cósmico inesperado interferiu no fluxo de energia, limitando a quantidade de Sowf que chegava ao planeta. E duraria milhares de anos.
Toda espécie de degeneração começou a acontecer.
Vidas encurtadas, hábitos violentos, desavenças, competição e guerras entre seres da mesma raça.
A quantidade de Sowf disponível era cada vez menor e o número de pessoas aumentava de forma incontrolável.
Como "uma mesma quantidade de manteiga para um pedaço cada vez maior de pão".
O planeta agora se chama Shikasta, a sofrida.

Seus habitantes ouvem a verdade e se esquecem dela.
Sua sede de Sowf é insaciada desde que nascem, durante suas vidas curtas e desesperadas, até a morte. Porisso consomem recursos desnecessariamente, sofregamente, desesperadamente.
Cada dia tem menos sábios completos, independentes e lúcidos a quem recorrer para resolver seus problemas mais cotidianos.
Todos são uma sombra em dia nublado, perto da glória solar de dias antigos.
As pessoas tem medo de tudo e de todos, sem ter quem lhes dê segurança e mesmo inspire confiança.
A educação é técnica, a moral é relativa, a cultura é instrumento de ideologias de dominação e consumismo.
Seus líderes são corruptos e comprometidos apenas com a mera ambição de riqueza.
Sua religião é apenas instrumento de dominação geográfica, ponta de lança do colonialismo e da exploração do homem pelo homem.
Todas as palavras estão mortas, pois não se referem mais à realidade e apenas justificam ideologias de dominação e consumismo. As palavras nada mais significam, agora banalizadas por mentirosos e profetas de falso Verbo.
Sistemas extraordinários permitem que a informação percorra o planeta de imediato, mas está tomado por mentiras, crime, banalidades e tolices que soterram tudo o que é relevante. 
E não há nenhum deles que se levante e diga que tudo está errado e nossos erros vão nos conduzir ao apocalipse do homem, ao fim do mundo civilizado.
E não há nenhum deles que seja honesto.
E não há nenhum deles que seja honrado.
E não há nenhum deles que seja inocente.
Nenhum que saiba a solução, proponha o trabalho e execute a revolução tão necessária.
O Homem está só.
O Homem está órfão.
É escasso o fluxo de Sowf e não há alimento para alimentar grandes homens.
Hoje, todos os homens são pequenos.
Não há mais Ciência, apenas Tecnologia.
Não há mais Arte, apenas negócios.
Talvez sobrevivam alguns que sabem extrair do ralo Sowf um pouco de alimento para suas almas imortais. Mas sofrem e se martirizam, são ridicularizados e adoecem, loucos e perdidos num oceano de ignorância.
Todos os sintomas de degeneração estão presentes.
A incompetência generalizada.
A impotência da Lei.
A surpresa com o previsível.
A dissociação de causa e efeito nos fenômenos mais elementares.
O Homem está só.
O Homem está órfão.
E caminha de forma inexorável para o destino traçado por suas religiões de estupidez inacreditável.
Seguindo o percurso traçado por suas ideologias maléficas.
Pois o Homem se torna cada vez melhor em sofisticar suas piores qualidades.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O ano de 2015 - Indústria Gráfica

IDIOCRACIA

INDÚSTRIA GRÁFICA

Livros de literatura ou de simples leitura, revistas, jornais, enfim, todos os meios de comunicação impressos estão adotando as mesmas características de outros veículos de sucesso no Século 21: Qualquer idéia, ou a mesma idéia, produzida exaustiva e repetidamente, sem importar a qualidade.

No Século 21 é o mercado que determina o que será
impresso.

Sendo o Mundo repleto de pessoas, qualquer coisa vende a muita gente. Assim como muita gente irá comprar qualquer coisa que se filme, que se cante ou que se pinte, muita gente sempre vai ler qualquer coisa que se publique, por mais improvável que isso seja.

Um fenômeno que sempre se verificou na imprensa, agora se generaliza em todos os novos meios. 

No passado, grandes autores se dedicaram a escrever romances publicados periodicamente em jornais. Toda semana autores  clássicos como Balzac, Dumas e Dickens usavam aquele que era o único e mais poderoso meio de comunicação entre os séculos 17 e 20, o Jornal. Cada edição tinha um capítulo do que se tornaria um grande romance e, por suas reais qualidades, literatura de verdade.

Atualmente, o cinema utiliza estas obras e de muitos outros autores, frequentemente fazendo versões atualizadas ou leituras pessoais, até mesmo cópias escancaradas de situações primeiramente exploradas por estes clássicos.

Nestes dias, há uma voracidade insaciável do leitor pela leitura de ação de fácil digestão. Assim, uma idéia que daria um bom livro é explorada em trilogias e pentalogias que fazem a felicidade do mercado editorial por muitos anos, logo em seguida adaptadas ou fielmente retratadas pelo cinema.

Há autores de sucesso e autores de valor neste grupo. Entre eles, podem estar escritores de valor como Doris Lessing, Frank Herbert e J. R. R. Tolkien.

Compõe esse grupo autores de qualidade mediana, como J. K. Rowlings, Stephenie Meyer, Justin Cronin, Stieg Larsson e George R. R. Martin.

E há uma legião incontável de obras menores, muitas apenas mera imitação de obras de sucesso, de qualidade no mínimo questionável, como Rick Riordan, Veronica Roth, Suzzane Collins e duzias de outros autores que tomam mais da metade do estoque de qualquer livraria.

Pela média, medíocre, meia-boca, desde que inventaram o computador o escritor se tornou prolixo (pró lixo). Vai escrevendo e depois conserta ou deixa estar para compor trilogias enormes e vazias. É mais do mesmo elevado à insignificância. Antes dos computadores, dava tanto trabalho escrever : datilografar : revisar :  re-escrever :  revisar  :  compor  :  revisar  :  imprimir, que diziam que escrever era 10% inspiração e 90% transpiração. Os autores eram remunerados por palavra! Hoje, com 10% de inspiração um livro está praticamente pronto e vai do computador com auto-correção diretamente para a impressão.

Ler pode ser um vício como qualquer outro, onde o dependente começa seduzido pelos melhores e depois se satisfaz com qualquer coisa que venha com uma capa e tenha muitas folhas cobertas por letrinhas enfileiradas.

Pois a palavra impressa é apenas um negócio como outro qualquer que produz o que o mercado compra.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O ano de 2015 - Cinema e Televisão

IDIOCRACIA

ARTE CINEMATOGRÁFICA

Nunca deveria ter havido uma Arte Cinematográfica, mas existiram alguns cineastas que fizeram da Indústria Cinematográfica uma Arte.

Separar o palheiro da agulha é um trabalho que exige uma entidade imortal com enorme e inesgotável energia, pois, se existem milhares de filmes puramente comerciais, existem centenas que se pretendem artísticos e apenas uma dúzia com verdadeiras qualidades. Alguns reúnem até mesmo detalhes presentes em verdadeiros de filmes de arte que se tornaram clichês. Outros são obras de cineastas que replicam momentos da própria obra que um dia beiraram os domínios da Arte.


Assim como nas Artes Plásticas, configuram apenas obras de Artesanato e o que um dia foi virtuosismo se torna apenas oportunismo comercial.

A Idiocracia no Cinema atinge o paroxismo quando um cineasta com apenas uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, sem nenhum roteiro, planejamento ou organização, pretende realizar obras de valor. Quando uma obra é meticulosamente planejada, roteirizada e organizada, contando com recursos generosos e estrutura completa, enquadra-se perfeitamente na definição de Indústria Cinematográfica, explorando incansavelmente uma boa idéia original que atende às demandas do mercado.    

ARTE E CIÊNCIA TELEVISIVA

Se existe uma atividade industrial e comercial que valoriza a Criatividade é a indústria da televisão. Ao mesmo tempo é o maior exemplo de Idiocracia. 

Nela, uma boa idéia é explorada durante anos, com infinitas variações do mesmo.

É a única atividade de entretenimento que não se pretende Artística em nenhum momento. É um negócio, organizado, financiado e executado para lucrar e não há nenhum mal nisso.


Muito pelo contrário, propõe-se entreter simplesmente, naquele específico momento, sem nenhum compromisso em superar a si mesma no momento seguinte.

Como as Idéias são sua principal matéria prima, seus criadores são meticulosos em sua exploração, dosando seu fluxo para o mercado de acordo com sua tolerância.

Algumas, apesar de criativas e inovadoras, acabam se rendendo à ditadura do mercado, que impõe forma, intensidade e conteúdo às realizações, causando o fenômeno de PASTEURIZAÇÃO, ou seja, formatando a obra e desfigurando a idéia original ao gosto da maioria da população que compõe o seu público.

Se não é possível determinar se a indústria televisiva é Causa ou Efeito da Idiocracia, com certeza é correto afirmar que é o seu Termômetro.

Idiocrata por excelência, produz apenas o que pode ser consumido, digerido e tolerado pelo mercado, muitas vezes cometendo o erro de subestimar o público que, mesmo quando o produto é escancaradamente idiota, continua assistindo e estabelece um novo baixo padrão de produção.

Amalgamando Arte e Ciência, quanto mais pobre é a idéia, mais presente e impactante é a Ciência, neste caso tecnologia digital compensando a escassez de criatividade.

Como  novos recursos tecnológicos permitem barateamento da produção, não importa se a idéia é muito ou pouco vendável desde que venda para se pagar, o que não é difícil num mercado global.

A Televisão se apropria sem remorso do Cinema, dança, música, fotografia, artes plásticas, notícias, fatos históricos e praticamente qualquer coisa de qualquer atividade humana que lhe atraia a atenção ou que seja de interesse do mercado, pois é o fundo do poço de qualquer outra atividade e ao mesmo tempo o pico da montanha de muitos que atuam no entretenimento de nossa humanidade entediada.

Saciar a necessidade voraz do mercado, através da ocupação constante do Tempo é o único compromisso da indústria televisiva. Assim, o tempo de qualquer programa (show) é ocupado com frivolidades e exploração exaustiva de temas de importância momentânea ou nenhuma, mesmo ou principalmente no jornalismo, enquanto o tempo destinado a propaganda é cada vez mais caro.

CINEMA E TELEVISÃO

O Cinema usa grandes idéias, cada vez mais se comportando como a Televisão quando explorar a mesmas grandes idéias em diversas produções, à beira da tolerância do mercado.

A Televisão fica com as boas idéias, explorando-as pelo maior tempo possível.  

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O Ano de 2015 - Ideologia

IDIOCRACIA
IDEOLOGIA

Hoje, nossa civilização chegou em um elevado grau de globalização.


Muito mais do que a simples difusão instantânea de idéias, produtos e serviços, chegamos à verdadeira Generalização.

Não existem mais fronteiras políticas entre os países e as culturas. Algumas culturas resistem, outras sobrevivem pasteurizadas pelo colonialismo dos países mais poderosos, enquanto outras simplesmente desaparecem sem deixar registro.

Um guerrilheiro pode estar treinando agora em um acampamento nas montanhas do Afeganistão e daqui a 24 horas estar lutando em qualquer lugar do Mundo. Uma família de africanos está nesse momento atravessando o Mediterrâneo para desembarcar na França ou na Itália e se estabelecer na Europa. Um fuzil AK foi fabricado na Rússia, cruzou os Continentes e  está sendo vendido livremente num Walmart da Pensilvãnia, sem nenhum incoveniente. Os partidos políticos trocaram ideais por projetos de poder, em qualquer lugar do Planeta onde são permitidos.

Fronteiras políticas são anacronismos, mas as fronteiras geográficas são realidade física absoluta.

Demorei anos para entender a frase de Doris Lessing: "A Geografia é a resposta para todos os problemas da Humanidade". Pois li errado. Pensava que a Geografia traria a solução para nossos problemas, quando ela sempre foi a origem de todos eles.

(Aqui citei Doris Lessing completamente errado. Citei de memória de uma leitura de 1983.  A frase correta está na página 295 de Canopus em Argus - Arquivos Shikasta.)
"E a geografia é a chave para a compreensão dos problemas básicos..."

Neste momento econômico, os poderosos países industrializados consumidores de petróleo e gás estão prospectando energias alternativas e reduzindo sua dependência dos países exportadores desses combustíveis, como a região árabe e a Rússia, sendo exemplo ideal a situação da Venezuela. Atividade extrativa passiva, acaba por excluir outras formas de produzir riqueza, como a agricultura, pecuária e indústria, criando situação de dependência. Cai a procura, cai o preço e desanda o equilíbrio social e político nesses países.

Mesmo realidades físicas, as fronteiras geográficas são relativas. Um país da África já foi parte indistinta do vasto Continente, depois foi dividido e tornado Colônia da França, depois conquistou independência política, depois se tornou uma ditadura tribal sangrenta e se dividiu ao meio, depois sofreu intervenção militar estrangeira a pretexto de resguardar a ordem social, hoje é uma democracia falsa sustentada pela França, que dela obtém recursos naturais e humanos a baixo custo. Os argelinos ainda lembram dos massacres! Onde está a União Soviética? 

Resta apenas uma última fronteira ainda sólida em nossa civilização, a fronteira Ideológica.

Quando a Cultura é relativa, pasteurizada ou simplesmente absorvida por outra mais poderosa, deixa de constituir a identidade de uma raça ou de um povo. Ocorre também a erosão da cultura original, quando o Estado elege apenas alguns poucos entre os produtores e geradores de cultura, que são beneficiados com recursos e espaços públicos para se manifestarem, enquanto o restante desaparece por falta de apoio. Isso se chama "cultivar", ou selecionar e preservar aquilo que é do interesse sempre ideológico do governante.

A fronteira Ideológica se consolida e se mantém quanto maior a fé dos seus membros. O sentimento de religiosidade, com suas regras, tabus e mandamentos é o elemento principal nessa equação. Para arrematar, quanto mais frágil e relativa for fronteira política e a fronteira geográfica, mais forte é a fronteira ideológica. Ela não pode ser localizada precisamente nos mapas, pois se espalha por muitos países e para outros continentes. Está onde estão os seus fiéis.

Para nós ocidentais já globalizados, abecelizados, bebecelizados, já aculturados no padrão Americano Centro-Europeu, é difícil entender o que acontece.

Afinal, nossa religião cristã é permissiva, não exige obediência nenhuma, nem frequência, muito menos inspira medo, pois é a religião do perdão. Este é o lugar para onde fomos expulsos do Paraíso, apenas um Vale de Lágrimas para consumir e predar. Nossos compromissos são apenas para conosco mesmos e cada um cuida de si com relativos limites legais. Os padres são pecadores pedófilos e os pastores são pecadores ambiciosos, portanto não levamos o assunto muito a sério. Nossos princípios morais são mínimos, pois há racionalização para tudo e remédio para qualquer mal. Para nós, nada é sagrado.

Mas, para os Muçulmanos, o assunto é sério.

Entre Estado e Religião não há nenhum limite, um não se subordina a outro e entre eles não há distinção. É uma coisa só. O Código Civil e Penal está no Alcorão. Os códigos de conduta também. O Alcorão é a Lei para todos os crentes, estejam onde estiverem, sob qualquer bandeira, em qualquer classe social ou cor de pele.

E um princípio ideológico assim vital para a manutenção da identidade de um povo não pode ser desrespeitado. Quando todas as outras fronteiras faliram e foram extintas, esta é a última a ser defendida. O povo judeu sempre foi o melhor exemplo disso, quando conservaram seus valores culturais e religiosos e mantiveram sua identidade durante séculos.

É muito difícil para nós ocidentais entender isso. É fácil ter alteridade com outra opção sexual, com outra raça ou com outra classe social. Afinal, são todos ocidentais como eu.
Mas quando se trata de forte religiosidade acima de tudo e gerenciando todos os aspectos da vida, simplesmente não entendemos e não aceitamos.

Não estou defendendo ninguém, nem pregando nada.

Estou apenas tentando entender esse abismo.

Tentando entender os atentados terroristas, atos de guerra praticados por entidades ideológicas que agregam membros de muitos países, de diversas línguas e até de raças diferentes, não por Estados. 

As autoridades mundiais que dão sua opinião, expressam suas condolências e prometem proteger o Mundo, não entendem o seu inimigo o suficiente para vencer essa guerra. O sintoma mais evidente de idiocracia é o discurso político padrão aplicado a uma catástrofe ou uma tragédia. Pura alienação. 

No final da II Guerra, com os exércitos regulares sendo vencidos, Hitler mandou os meninos para batalha. Dizia que uma criança com uma carabina .22 podia parar um pelotão. Hoje, quando qualquer dupla de guerrilheiros pode traumatizar o Mundo, já passou da hora de rever estratégias, reorganizar os recursos e fortalecer as ideologias locais.     

Todos os cidadãos comuns que se solidarizam, ficam apenas indignados e passam a odiar o inimigo, fomentando ainda mais o medo. Servem aos propósitos de quem quer que se beneficie com a insegurança mundial, quando se juntam em praças e cobram atitudes dos governos, que estão táo aterrorizados, perplexos e impotentes quanto eles.

Os nossos sábios psicólogos e sociólogos, os acadêmicos que deviam nos esclarecer do real estado das coisas, apenas dizem bobagens. Pérolas de cupidez, como no atentado ao CHARLIE HEBDO",  dizem;  "vejam as armas que eles usaram, se fossem proibidas...",  ou ouvir que foi um "ataque à liberdade de expressão", enquanto para aquele que foi ofendido por esse direito de expressão foi "ataque à agência de propaganda do estado opressor". Para os empresários, donos de um jornal que passava por dificuldades financeiras, foi uma decisão editorial para polemizar ainda mais a questão muçulmana e voltar a atrair a atenção do público, aumentando as vendas. 

Nenhuma solução é possível enquanto o Todo Poderoso do Mundo Ocidental é o Capital e o consumismo é o ideal de todas as pessoas. Esta ideologia está falida, pois implica na escravização de seus membros e promove a alienação e falta de sentido de seu quotidiano.

Um jovem ocidental inteligente e promissor só consegue pensar em se preparar para um concurso público, para garantir acesso irrestrito e permanente ao consumo, salvaguardado-se da insegurança e competitividade do Capital.

Um jovem muçulmano abandona família e país, ingressando em organizações paramilitares para garantir o estabelecimento de sua Lei e o livre exercício de sua religiosidade, salvaguardando-se da voracidade e exploração do Capital. 

Enquanto o Estado se agiganta e afunda sob o próprio peso, as ideologias que transcendem fronteiras e legislações se fortalecem.

Se nós olhamos apenas um lado da moeda e eles olham só o outro lado, como entenderemos o que está acontecendo?

A quem interessa um mundo de idiotas que não conseguem enxergar além de um palmo adiante do nariz?

O ano de 2015 - Artes Plásticas

2015 será o ano que ficará conhecido como aquele em que ocorreu a definitiva consolidação do Idiocracia.

E é bom saber que isso finalmente acontecerá.

A Idiocracia tem sido a principal característica de nossa civilização e tem se tornado cada vez mais evidente e progressivamente acelerada a partir do início desse nosso Século 21.

Provas de seu surgimento, permanência e evolução estão por todos os lados, em cada meio de manifestação de pensamento, em cada forma de expressão artística e em cada um dos inúmeros instrumentos de comunicação disponíveis e ainda por ser invetados.

Dou alguns exemplos em cada uma das áreas de atividade.


IDIOCRACIA

ARTES PLÁSTICAS

Um artista que se expressa em qualquer técnica, seja pintura, escultura, gravura, dá forma a uma determinada idéia ou concebe uma obra a partir de sua idiossincrasia e de sua visão particular das coisas.


Pinta uma paisagem ou seres vivos e coisas, retratando de forma peculiar que com maior ou menor facilidade cai no gosto do mercado (conjunto formado pela crítica/senso comum/viabilidade comercial).

Descoberto o nicho, tornado produto comercializável, o artista reproduz a mesma obra com ligeira variação. Em seguida, faz outra e mais outra, todas ligeiramente diferentes seja no formato, no ângulo na luminosidade, sempre mantendo o conjunto das obras semelhante àquela primeira que foi bem acolhida pelo mercado.

Apesar da obra ter perdido sua qualidade de ARTE a partir da primeira duplicação, ainda é considerada Artística e seu autor um Artista. Mas é apenas ARTESANATO e seu autor um Artesão.

Podem ser encontradas obras assim por todo lado, seja em marinas, em pássaros ou em geometrias, mesmo em natureza morta, caricaturas e retratos.

Não perdem sua qualidade de Belas e Decorativas, mas deixaram de ser Obras de Arte.

A Idiocracia nas Artes Plásticas se consolida quando é o mercado que atribui qualidades artísticas a uma obra, apesar de ser meramente decorativa.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O LIVRO O LIVRO O LIVRO



LIVRO LIVRO O LIVRO

Esse livro maluco apareceu do nada na minha mão.

Peguei de bobeira na estantinha do tubo do Passeio Público. Era um dos únicos e peguei por ser o mais limpo e mais novo. Além do título, é claro. Na verdade, nem peguei para mim mesmo, foi mais pensando em dar para a minha namorada na época. Ela estava lendo O Santo Perdido e o livro era o Paraiso Proibido da Bree não sei das quantas. Era sequência, entende!

Abri para ler no ônibus mesmo e fui lendo. Ler é um saco. Cansa ficar seguindo cada linha bem direito, sem deixar o olho passear e depois passar para a de baixo e seguir de novo. Quando tem parágrafo pequeno e letras bem grandes é mais fácil. Esse até que tinha isso tudo.

Guardei na mochila e briguei com a menina naquele mesmo dia. Perdeu, guria. Tem quem quer. E o livro ficou guardado. Fui lendo e li até o fim e olha que era grande.

Quando terminei foi numa ida de ônibus, Antes de entregar no tubo, abri no começo e era outro livro. E era um que eu estava pensando em ler, o tal de Percy Jackson, que assisti no cinema. Devo ter trocado sem querer, mas não, não tinha como se não saiu da minha mão. Mas tava ali O Ladrão de Raios e não pensei muito não. Comecei a ler de boa.

Para resumir, li esse livro mais depressa do que o outro. Esse tinha mais porrada e facilitou porque eu já tinha visto o filme.

Dessa vez, joguei o livro no meu quarto e só fui olhar quando a mãe mandou arrumar a zona e achei o livro, só que era o Walking Dead. Não deu para acreditar que eu tinha o livro que eu pensei em ler quando vi os zumbis na TV. Muito massa!

E foi aí que eu descobri que eu tinha na mão um livro louco. Bastava eu querer ler algum livro e pronto, ele se transformava no livro que eu queria. Era só querer.

Não terminei de ler o Walking Dead, mas quis ler outro que eu estava a fim. Nada! Continuava o mesmo livro. Terminei de ler e quando li a última linha, pensei no outro livro e abri o livro de novo. Pronto! Já era o Percy Jackson e o Mar de Monstros, que eu tinha acabado de ver no cinema. Muito louco!

Pensei em mostrar para o professor de português. O figura vive mandando a gente ler essas chatices de autor nacional velho, mas perigava o sujeito mandar me internar. Pensei em contar para meus camaradas, mas eles não desconfiavam nem que eu dei de ler ultimamente. Eu pensava eu dizendo: olha esse livro, meu, vira o livro que eu quero ler. E nunca contei para ninguém.

No próximo livro eu fiquei esperto. Fiquei pensando que queria ler o livro mais foda que vai sair no ano que vem.

E não deu outra. Apareceu A Cidade dos Espelhos, do Justin Cronin. Não tinha lido os outros dois, o livro era de letras pequenas, parágrafos grandes e com umas 700 folhas e me fodi nessa. Mas não teve maneira. Só lendo tudo até o fim para o livro mudar. E não adiantava ficar querendo ler outra coisa que o maldito livro não mudava. A regra é ler até o fim. Nem precisa ler com muita atenção e pode até pular as partes mais chatas, mas tem que ler até o fim.

Estou nessa de ler de graça qualquer livro que eu quiser e até livro que ainda nem foi terminado, nem traduzido e que nem existe mais.

Tá aí uma coisa muito louca.

Podia até tirar uma foto e mandar ver, mas ia parecer só um livro igual a qualquer um.

domingo, 22 de junho de 2014

Eu estou muito cansado

Eu estou muito cansado

De ter que levar esse tempo em minhas costas,
De precisar sorrir diante da alegria ilusória,
De sorrir mesmo quando cresce a solidão.
Eu estou muito cansado
Por correr em brasas um ritmo descalço,
Por amar e me enganar ao sonhar comunhão,
Por viver num espaço simulado.
Eu estou muito cansado
Por viver com um desejo impossível,
Por nunca ter sabido a razão que movimenta
E desejar esquecer o meu desejo.
Eu estou muito cansado
De buscar um centro ao universo
Num planeta que rola sem destino.
De encontrar em minha porta, todo tempo,
Fechaduras, trancas, guardas e indiferença.
Eu realmente estou muito cansado
Da fome e do medo, andar e correr,
De sonhar e viver restrito num amor.
De pensar e chorar e acabar caído no chão.
Eu estou muito cansado
De saber o pouco que me resta,
De pouco ver do muito que me mostram,
E de esquecer do nada que me espera.
Eu estou muito cansado.
De olhares cheios de angústia,
Do saber que é só ignorância,
De palavras jogadas ao vento
E do nada que tudo já se torna.
Eu estou muito cansado
Do tempo, espaço e consciência,
Do fogo, água, terra e vento
E do éter desconhecido esquecido.
Eu estou muito cansado
E que o céu me espere e perdoe
Pois o cansaço é o muito pouco que me resta
Da vontade de um dia... sei lá!
Meu cansaço é o retrato de meu tempo,
Que lá vai e se desmancha com o vento.
Eu estou muito cansado
E quero o que me resta nesse mundo
Num só tempo, sem espera e adormecido.
Eu estou muito cansado
E já basta essa história comezinha
De pautar a vida por desencantos.
Chega de viver voltando atrás
Por trilhas marcadas por lágrimas.
Rastro meu de sangue e lágrimas
Por esses velhos caminhos cansados.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um acontecimento fora do ordinário

"As anotações do homem estrela"

Aconteceu um fato extraordinário nestes últimos dias.

Em 1971, escrevi um livro.

Tinha de 14 para 15 anos e vivia em Guarapuava, cidade então pequena no oeste do Paraná. Antes, morei em Curitiba alguns anos e voltar para uma cidade pequena foi o evento mais frustrante e penoso de minha vida. Em Guarapuava havia apenas uma pequena biblioteca, apenas um cinema, frio, vento e ruas de terra por todo lado. Os livros, li todos em pouco tempo. No cinema entrava quando queria e sem pagar, pois envernizei toda a meia parede de lambris ajudando meu avô. A neve queimou a pele de meu pescoço e trago a marca até hoje.

A idéia de escrever não era nova. Escrevi desta vez por ter encontrado um amigo, o Sérgio que, além de ter uma máquina de escrever, tinha um parente dono de editora. Assim combinamos: eu escreveria, ele datilografaria e editaria.

Inventei um personagem de ficção científica e escrevi 606 páginas.

Hoje, este eu não entende o garoto que escreveu aquelas linhas. Quase todo tempo cometendo erros básicos de grafia, muitas vezes de uma ingenuidade atroz e outras tantas mostrando uma sabedoria inesperada. Um talento ele possuía: sabia escrever de forma direta, sem perda de tempo e de primeira. Sequer reconheço aquele menino.

Mesmo antes de ter terminado, a família do Sérgio se mudou para Campo Mourão e ele foi junto. Terminei o livro, mandei para ele e nunca mais ouvi falar.

Em 1977... 1978, encontrei o Sergio na Livraria Guignone, na Rua das Flores, em Curitiba. Conversamos, comemos coalhada na Schaffer, meio constrangidos pelo projeto abortado e ele disse ter perdido os manuscritos numa mudança.

É isso, fim da história!

Se, não tivesse recebido esta mensagem um dia destes:

“””””Bom Dia!
Recentemente, fazendo uma arrumação em casa, encontrei alguns papeis que pertenceram a meu irmão; e neles aparecia o nome de um amigo dele: Pedro Malanski Jr.
E hoje passeando pelo facebook, vi um comentario seu. Buscando mais consegui seu e-mail.
As anotações do meu irmão se referem a um livro que ele e o Pedro estavam escrevendo. Isso se passou em Guarapuava nos anos 70 e 71.
O nome do meu irmão era Sergio, e nós nos mudamos para Campo Mourão em 1972. Meu irmão faleceu em 1980.
Gostaria de saber se voce é o amigo do meu irmão.
Desculpe tomar seu tempo.
Se voce não for o mesmo Pedro, por favor ignore e me desculpe.””””””

Encurtando, como faria aquele Pedro, ela me mandou os manuscritos, com cartas trocadas entre nós.

É uma historia extraordinária.

Mas há alguma coisa nela que me intriga.

Qual o significado desse evento justamente hoje?

NENHUM?

Impossível, nada acontece na minha vida por mero acaso.

FECHOU-SE UM CÍRCULO DA RODA DA VIDA?

Provável, se a vida fosse circular. A minha é uma espiral ascendente de evolução constante e se desenvolve rumo a um objetivo inexorável.

AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ?

Impensável, felizmente a vida não deve ser uma repetição maçante de toma-lá-dá-cá, como num inferno pessoal tantalizante.

MORRI E ESTOU PRESO A UM ASSUNTO NÃO RESOLVIDO?

Possa ser, se este assunto me perseguisse compulsivo. Não me lembro de ter pensado nisso ultimamente.

A não ser há uns dias, quando lamentei não conseguir abrir um maldito diskete onde guardei outro livro que escrevi, o “Como uma Pedra Rolando” e fiquei maldizendo os malditos formatos decaídos, usados para perdição da informação.
Nesta hora lembrei desse livro, dos meus sonhos infantis e imaginei o Sérgio em algum lugar do mundo, cheio de filhos e se divertindo de alguma forma. Foi duro saber que morreu num acidente de automóvel em 1980.
É uma merda de vida, às vezes.

A INTERNET É UM FENÔMENO IMPRESSIONANTE?

Sem dúvida, mas é explicação muito fácil, simplista e genérica.

FALTA CABEÇA PARA PENSAR?

Com certeza! Exercito “da refleção à luz mortiça” como falou Macbeth. Não entendo do que estou tratando, me falta estudo e diplomação para entender o fenômeno. “... a viva cor da decisão desmaia”, continuaria Macbeth, se não me restasse a ajuda de amigos para me dar uma luz nessa história.

É UM TAPA NA MINHA CARA?

Correto!

É como se aquele menino surgisse hoje na minha frente e me cobrasse todas as nossas promessas.

Se, com 14, escrevi aquelas tolices de forma incorreta, o que escreveria com 24, 44, hoje?

Todos os textos abandonados, as idéias esquecidas, os projetos recusados...

Sempre achando que o Mundo era ridículo demais para entender o que eu tinha para dizer.

Sempre avesso a me corromper pelo Mercado.

Sempre e sempre me corrigindo e me reescrevendo.

Insatisfeito comigo mesmo, enquanto tanto escritor medíocre faz sucesso.

Preguiçoso de refazer, revisar, depurar.

Sempre uma desculpa envolvendo casar, ter filhos, ao sabor da vida me levar, como qualquer acomodado nos caminhos fáceis.

Pois bate, menino!

Bate forte!